A Mulher-Maravilha É Feminista?

Opinião & Entrevistas

Vestida de azul e vermelho, com detalhes em branco e amarelo-ouro, e com algumas estrelinhas, fica clara a relação da Mulher-Maravilha com os Estados Unidos. O mesmo já não podemos dizer sobre a sua relação com o feminismo – essa relação nem sempre é clara e ora apresenta aproximações, ora distanciamentos.

Nascida em 1941, ela compartilha com o Super-Homem, de 1938, a imagem do imperialismo americano. Ela busca a paz e a harmonia pregando a não-violência. Nasceu para ser um exemplo de mulher, um modelo a ser seguido pela mulher da década de 1940 e 1950. Era recatada, inteligente, elegante, com sua saia rodada e cabelo curto, e, em suas primeiras histórias – na era de ouro de 1938 a 1945 –, resolvia os conflitos com a sedução do amor: essa era a superioridade feminina.

William Moulton Marston, psicólogo americano, seu criador, concebeu a Mulher-Maravilha como um símbolo da mulher ideal, que era superior ao homem em todos os sentidos, uma vez que estes eram violentos, irracionais e movidos por suas baixas paixões. Além disso, Diana era uma das Amazonas – mulheres guerreiras, caçadoras e independentes, figuras clássicas presentes na literatura universal, como na Ilíada de Homero, nos Doze Trabalhos de Hércules e nas viagens dos Argonautas comandados por Jasão. Elas rivalizavam com os homens em pé de igualdade. Nas HQs, a exemplo do mito greco-romano,

Diana e suas irmãs lutavam contra o patriarcado e a dominação do homem, representado pela fúria de Aries, deus da Guerra, bem como de todos os outros deuses malévolos, que eram representados por homens. O poder da heroína era ressaltado pela presença de Steve Trevor, militar e humano, que era constantemente salvo por ela, representando uma inversão do mito da donzela em perigo.

Ainda assim, essas caraterísticas não a colocavam em papel de igualdade com os outros super-heróis homens. Em 1942, Diana ingressou na Sociedade da Justiça como secretária. Somente quatro anos depois, em 1946, é que ela passou a ir a missões com os outros heróis. Além disso, na fase do roteirista Robert Kanigher, de 1947 a 1967, havia uma busca incessante pelo casamento com Steve Trevor – apesar da insistência, o casamento ocorreu somente no final da crise das infinitas Terras, em Wonder Woman 329, em 1986. A mulher, nesse período, possuía habilidades para organização do lar e da casa, tinha no casamento um valor, usava roupas adequadas (saia) e o cabelo adequado para uma mulher (curto); era forte e sabia usar a sua graça feminina (a submissão) para evitar os conflitos no casamento e com os homens. A reformulação da heroína em 1987, após a crise das infinitas Terras, realizada pelo roteirista e desenhista George Perez,

na HQ Deuses e Mortais, apresenta uma Diana forte, sensual e independente – mais próxima dos ideais da terceira onda do feminismo na década de 1980, que valorizava o empoderamento feminino e a desconstrução do masculino. Sua imagem se contrapõe à figura de 1941, mais recatada e do lar. Agora a Mulher-Maravilha tinha cabelos ondulados, longos e cheios. O biquíni asa-delta era sua marca e usava joias, com destaque para adereços simbólicos, como os braceletes da submissão, uma lembrança da época em que Hércules e seus homens, influenciados por Aries, subjugaram as Amazonas e, logo, depois, foram vencidos por Hipólita e suas Amazonas.

É por essas e outras que, até hoje, a Mulher-Maravilha é um símbolo do feminismo, seja no final da primeira onda, da segunda ou da terceira. Sua sexualidade, ao invés de objetificação, na verdade evidencia que as mulheres foram libertas da opressão masculina. Agora podem pensar, sentir e vestir o que desejarem, de forma independente. A Mulher-Maravilha é feminista em sua concepção original, que respeitou as concepções do feminino do final da primeira onda do feminismo, e em 1987, na terceira onda; e nada impede que ela também seja feminista agora, nos anos 2020, celebrando com plenitude os direitos das mulheres.

PROF. ALEX CALDAS

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