As inteligências artificiais têm causado grande impacto em nossa sociedade, o que nos leva a refletir sobre sua real eficiência. Apesar de sua capacidade de realizar diversas tarefas, as IAs ainda possuem limitações — por exemplo, não conseguem interpretar uma obra literária de forma profunda e sensível. Isso nos leva a encará-las com um olhar mais crítico.
O professor Raoni Schimitt Huapaya, que desenvolve um projeto integrando literatura e inteligência artificial, explica melhor essa relação. Doutor em Ciência da Literatura (Teoria Literária) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com estágio internacional na Université Côte d’Azur, na França, Raoni é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Humanidades (PPGEH) do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES).
Sua atuação acadêmica destaca-se pela interdisciplinaridade, unindo literatura, tecnologia e educação crítica em contextos multilíngues. Ele coordena o projeto Artificial Intelligence in Literary Analysis and Media Education – Transatlantic Collaboration (AILAME-TC) – Inteligência Artificial na Análise Literária e na Educação Midiática – Colaboração Transatlântica -, realizado em parceria com a Université Catholique de Louvain, na Bélgica, e financiado pela Fapes, em colaboração com a Wallonie-Bruxelles International (WBI). Também é autor do livro Lima Barreto: literatura e experiência urbana na crônica carioca (Pimenta Cultural, 2023) e organizador da reedição de Doutrina do Engrossamento (Edifes, 2017).

Segundo o professor, as inteligências artificiais vêm para nos auxiliar, mas é importante destacar que elas ainda não possuem uma compreensão textual profunda. Embora sejam úteis em tarefas como realizar cálculos ou resumir mensagens relativamente complexas, não são capazes de acessar as experiências subjetivas da linguagem — experiências que, por vezes, são sagradas, místicas ou artísticas, e que uma IA jamais conseguirá reproduzir plenamente.
A limitação das IAs não se deve apenas à escassez de dados de treinamento, mas ao fato de que elas ainda não sabem como utilizar esses dados de forma significativa. “Por que ela não consegue usar esses dados?” — essa é uma das perguntas que movem as pesquisas do professor Raoni. Ele acredita que, quando as IAs forem capazes de mobilizar todos esses recursos de maneira eficiente, poderão ser ferramentas ainda mais relevantes na literatura e na educação — ainda que, em certo grau, já estejam sendo utilizadas com esse propósito. Um dos objetivos de seu projeto é formar talentos, apresentar o estado da arte na área e discutir os desafios éticos que envolvem o uso de IAs. O projeto busca reunir pessoas com formação em tecnologia e em literatura, promovendo conexões e desenvolvendo contextos inovadores para essa intersecção.
No entanto, o professor ressalta a importância de termos conhecimento qualificado e profissionais bem preparados para lidarmos com as inteligências artificiais de forma eficiente e ética.
Ele ainda alerta sobre a velocidade com que alguns empregos estão desaparecendo devido à automatização promovida pelas IAs. E conclui: “Não podemos substituir o professor, a interação face a face, o estar com o outro”.
