Antirracismo na Prática: Educação, Cultura e Identidade

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Antônio é licenciado em Ciências Sociais e mestre em Educação Profissional e Tecnológica pelo Ifes. Atuou por 10 anos como professor de Sociologia na rede pública de ensino. Atualmente, é Técnico em Assuntos Educacionais na Coordenadoria de Gestão Pedagógica do Ifes campus Venda Nova do Imigrante e coordenador do Pré-Enem Afirmação, rede de cursinhos populares que operam em comunidades periféricas na Grande Vitória-ES.

Racismo estrutural

O racismo estrutural é um alicerce da sociedade brasileira. Com mais de 300 anos de escravidão, constitui o principal pilar das relações sociais, econômicas e culturais do Brasil. É possível notar que a escravidão acabou oficialmente, mas, socialmente, ainda existem diversos fatores de exclusão da população negra. No Brasil, as estruturas de poder, conhecimento e riqueza continuam concentradas nas mãos do segmento branco da população, enquanto o segmento negro ainda passa por processos de exclusão.

13 de maio

É considerado o dia da abolição da escravatura no Brasil, mas, na verdade, trata-se de uma falsa abolição. A população negra foi jogada à própria sorte. Foi libertada sem terra, trabalho e acesso à educação. Não houve nenhum tipo de reparação política para incluir a população negra. O que, de fato, se evidenciou foi o incentivo à imigração europeia, como parte de um processo e de uma tentativa de embranquecimento da população e valorização da cultura europeia no Brasil. Esse foi o processo do pós-abolição. Para quem defende a igualdade racial no Brasil, os direitos da população negra e a afirmação da identidade e da negritude, há como reconhecimento a data de 20 de novembro – o Dia da Consciência Negra –, que representa a resistência negra e a luta por igualdade racial.

Racismo na educação

Primeiramente, é possível perceber o histórico de exclusão da população negra com relação ao acesso à educação. Em segundo lugar, observa-se a maneira como a população negra é representada nos livros didáticos: a história dos povos indígenas e africanos é colocada em segundo plano. Também é possível notar que o ambiente educacional está impregnado pelo racismo, nas diferenças de tratamento que ocorrem entre alunos, funcionários e professores negros. Algumas vezes, alunos negros são subestimados ou considerados mais agressivos do que alunos brancos. Dito isso, é notório o racismo estrutural presente no discurso meritocrático – aquele que afirma: “basta se esforçar para conseguir” –, desconsiderando todos os processos de exclusão pelos quais jovens e adolescentes negros passam.

Venda Nova do Imigrante

Há, no município, a questão do eurocentrismo. Trata-se de uma cidade com uma identidade cultural muito demarcada; percebe-se a valorização da cultura europeia, com a reafirmação da tradição italiana o tempo inteiro. Isso, muitas vezes, deixa de lado manifestações culturais de outras vertentes. Pouco se fala em capoeira, congo, samba e rap, considerando que essas manifestações existam pela cidade, mas, na concepção de Antônio, são pouco valorizadas.

Para o cientista social, não basta a educação não ser racista; ela tem que ser antirracista, combater os preconceitos, os estereótipos, a ignorância e trazer à tona a história que foi apagada. Na Sociologia, essa temática é abordada ao tratar das estruturas de poder. Na História, além da escravidão, estudam-se os conhecimentos e legados dos

povos africanos e civilizações que se ergueram e foram depois dizimadas pela colonização europeia. Na Literatura, valoriza-se a produção literária de escritores negros, como Machado de Assis, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo, que, inclusive, foi homenageada recentemente com o título de Doutora Honoris Causa pela UFES.

NEABI

É importante destacar o papel do NEABI, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas. Trata-se de um espaço de estudos, como o próprio nome já diz, e de discussões a respeito das questões raciais e culturais na sociedade e na educação. Além disso, promove ações concretas, como encontros, atividades, palestras e rodas de conversa, em que os alunos negros puderam expressar o que sentem, e os alunos brancos também tiveram a oportunidade de se colocar nesse debate, conscientizando-se a respeito do racismo e da desigualdade racial, além de repensar a maneira como tratam uns aos outros. Para além de trazer esse conhecimento, o NEABI eleva a autoestima dos nossos alunos negros, o que é fundamental.

A política de cotas é essencial para incluir a população negra em espaços historicamente excludentes, promovendo uma reparação necessária ao combate ao racismo estrutural. Para avançar, o Ifes pode investir em formações continuadas com especialistas, fortalecendo uma educação antirracista por meio do diálogo e da inclusão.

Autor: ISABELLY POCIDONIO

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